– Presidente da Petrobras diz que tendência de preços internacionais é que baliza decisões da companhia
O Estado de S. Paulo
ENTREVISTA
Magda Chambriard
Engenheira, presidiu a Agência Nacional de Petróleo (ANP) entre 2012 e 2016; está no comando da Petrobras desde maio de 2024
A Petrobras pode baixar os preços caso os combustíveis no Brasil fiquem muito mais caros do que os patamares praticados no mercado internacional, de acordo com a presidente da estatal, Magda Chambriard. Pressões recentes, incluindo ações do chefe da Casa Branca, Donald Trump, têm empurrado as cotações do petróleo para baixo. Atualmente, o preço do tipo Brent está em cerca de US$ 70 por barril, abaixo dos US$ 83 previstos no plano da Petrobras, divulgado em novembro.
“Se o preço (no Brasil) ficar muito acimado mercado (externo) e enxergarmos que a tendência é essa, vamos mexer certamente. Da mesma forma, se ficar abaixo vamos mexer também”, disse Magda, em entrevista ao Estadão/Broadcast, durante evento da Câmara de Comércio Brasil-Texas (Bratecc), encontro que acontece em paralelo à CERAWeek, uma das maiores conferências de energia do mundo, realizada em Houston (EUA).
Sobre a aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o plano de limpeza da sonda que será utilizada na Margem Equatorial, Magda disse que é um sinal de que a estatal está no caminho certo para começar a explorar a área, considerada uma espécie de “novo pré-sal”, mas que divide ambientalistas e o setor de óleo e gás. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O ministro de Minas e Energia disse em entrevista à Coluna do Estadão que, diante dos preços mais baixos do petróleo no mercado internacional e da queda do dólar, é o momento de analisar uma redução do preço dos combustíveis no Brasil. A sra. concorda?
Analisamos o preço no mínimo a cada 15 dias. Isso aí faz parte da nossa obrigação, olhar esses preços toda hora.
E já está na hora de baixar? Se o preço ficar muito acima do mercado e enxergarmos que a tendência é essa, vamos mexer certamente. Da mesma forma, se ficar abaixo, vamos mexer também. Monitoramos isso e também o market share. O que não é interessante para nós é ficar como preço muito alto porque perdemos mercado. Com preço muito baixo, perdemos dinheiro. O que fazemos é olhar o tempo todo se essas coisas estão equilibradas dentro do que a Petrobras se propõe.
Há pressão sobre os preços? Olha só, a pressão vem mais pelo jornal, pelos jornalistas e pelo mercado. Porque o governo mesmo está entendendo como correto o posicionamento da Petrobras. No ano passado, logo que assumi, eu disse: esse preço não está legal. E tivemos toda a liberdade, sem nenhuma pressão, nenhum constrangimento, para colocar o preço no patamar que entendemos como correto.
Qual é o momento agora?
No começo do governo Lula, a Petrobras fez um movimento de abrasileiramento dos preços. Construímos um cenário, no qual acompanhamos a tendência no mercado internacional, evitando trazer para o Brasil a volatilidade, seja a flutuação do preço do Brent ou do câmbio, e sem cobrar custos inexistentes. O conselho de administração, com representantes governamentais e privados, acompanha esse desempenho todo mês. Fechamos 2024, e ninguém reclamou. Acho que estamos no caminho certo. Preço não foi um problema, não oneramos o caixa da empresa com questões de preço, e no começo do ano aumentamos o preço do diesel de novo.
Hoje estão equilibrados? Hoje, não estamos pensando em mexer (nos preços) a curto prazo.
Como a Petrobras recebeu a aprovação pelo Ibama do plano de limpeza da sonda que será utilizada na Margem Equatorial?
Com muita alegria, estávamos esperando por isso há muito tempo. Entregamos a última demanda do Ibama no fim de novembro, respondendo a todos os questionamentos. Estamos concluindo a obra do segundo Centro de Despetrolização da Fauna, no Oiapoque (Amapá), no fim de março; promovemos energia no local, que não tinha; conservamos o aeroporto; e atribuímos tudo isso à autorização do Ibama para mover a sonda e começar a limpeza.
Quanto tempo demora esse processo?
Essa sonda está furando na Bacia de Campos e vai levar dois meses para limpar o casco. Temos de garantir que não vá nenhuma espécie invasora. É uma sonda de primeira qualidade, compatível com todos os níveis de segurança para perfurar no Amapá, em águas profundas. Estamos promovendo um plano de emergência individual único no mundo. É o maior que eu já vi para águas profundas, inclusive contando com monitoramento de eventuais derrames com tecnologia em parceria com a Nasa.
A sra. está otimista com a obtenção da licença para a Margem Equatorial? Com certeza. Apesar de o presidente do Ibama dizer que, olha, isso não é garantia de licença, eu acho que, no mínimo, é um excelente indicativo de que estamos no caminho certo.
É sua primeira vez como presidente da Petrobras na CERA Week. Quais suas impressões?
A grande mensagem dos representantes dos EUA foi: “Olha, nós estamos querendo que vocês sejam bem-vindos, que produzam muita energia”. Essa é uma boa mensagem e que acolhemos de uma forma muito benéfica. No Brasil, é a mesma coisa. A gente também diz bem-vindos para quem quer investir, fazer geração de energia no Brasil.
Como a Petrobras se posiciona neste cenário? Fornecemos 31% de toda a energia primária do País. Olhando para os próximos 25 anos, para mantermos a nossa relevância, precisamos crescer no passo do Brasil. Temos de crescer pelo menos 60% nos próximos 25 anos. E aí muitos vão dizer: “Ah, mas isso é muito desafiador, isso é difícil de acontecer”. E eu digo: “Não, não é tão difícil.
“O que não é interessante para nós é ficar com o preço muito alto porque perdemos mercado. Com preço muito baixo, perdemos dinheiro. Então, olhamos o tempo todo se essas coisas estão equilibradas”